Vikings: congruências históricas da famosa série.


Quem já viu a série da Neflix “Vikings” deve ter se impressionado com o universo cultural que ela explora e, possivelmente como nós, ter se perguntado se alguma coisa dessa envolvente narrativa de fato aconteceu. Vem com a gente nessa primeira história medieval.


Atenção! Contém infiltrações!


A série “Vikings” ilustra um período histórico chamado “Era Viking”, quando o povo nórdico se dedicou à expansão do seu território, conquistando terras como Islândia, Normandia, Groelândia, Rússia e Ucrânia e (cenário da série) a Grã-Bretanha.



Mas afinal, a série guarda algum respaldo histórico? Bem, é bom que se deixe claro que a obra não se compromete com nenhum tipo de fidelidade histórica. Ela não tem essa proposta. No entanto, ela usa diversos acontecimentos reais como inspiração e pano de fundo da trama.


Comecemos com o ataque ao mosteiro de Lindisfarne! Não sei se o leitor se lembra, mas Ragnar desembarca com seu grupo em uma praia e encontra um mosteiro: é a primeira invasão mostrada pela série. Pois bem, isso de fato aconteceu. Em 793 dC os navios Vikings desembarcaram na ilha de Lindisfarne na Inglaterra, o mosteiro foi invadido, os monges violentados e roubados. Acontece que, diferente do que a série mostra, o evento não foi fruto de um ataque aleatório e sim de uma revanche, haja vista que em 772 o rei Carlos Magno, havia invadido as terras nórdicas. Ele ordenou que seu exército destruísse a árvore sagrada dos vikings, colocasse uma cruz no lugar e os convertesse à força ao cristianismo. Os Vikings reagiram e deram início a uma onda de ataques a igrejas e mosteiros. Em 782, Carlos Magno retrucou ordenando que 4500 pagãos fossem reunidos e batizados à força. Os vikings resistiram bravamente e foram todos decapitados. Portanto, quando os vikings souberam que a Inglaterra havia se tornado vassala dos Francos, resolveram invadir o mosteiro de Lindisfarne, dando continuidade a essa guerra que durou 200 anos.



Outro aspecto interessante da série é que de fato existiu um viking chamado Rollo, que se aliou aos francos ganhando um pedaço de terra no noroeste da França que hoje chamamos de Normandia. Com a morte de Carlos Magno, seu império foi dividido entre três dos seus filhos, ficando uma parte com o rei Carlos, o simples. O domínio do rei Carlos sofreu inúmeras invasões vikings até chegar ao ponto em que não havia alternativa, a não ser aliar-se a eles. Com isso, o rei celebrou o mencionado acordo com Rollo. Mas diferente do que a série mostra, Rollo não se casou com a filha do rei, nem houve revolta por parte dos Francos ou algo semelhante. Rolo cumpriu com todas as exigências do rei Carlos que eram: instituir o sistema feudal, converter os vikings que fossem residir naquela região ao cristianismo e defender o reino Franco sempre que preciso.



Também existiu um famoso guerreiro e navegador viking chamado Bjarni. Conta a lenda que ele chegou a América do Norte muito antes de Cristóvão Colombo.



Não sei se o leitor se lembra da cena em que Ragnar se finge de morto, entra em um caixão para poder invadir uma cidade. Esse fato realmente aconteceu, havia um viking chamado Harald Hadrada que foi expulso de sua terra, a Noruega, pois era herdeiro do trono, e acabou integrando o exército do imperador bizantino - era um exército exclusivo de soldados vikings. Ficou muito famoso pela sua destreza em campo de batalha e por sua inteligência. Certa vez, Hadrada estava em um cerco muito difícil até que teve uma brilhante ideia: pediu aos seus homens que o pusessem em um caixão e anunciassem que o líder do exército havia morrido e implorassem que deixassem enterrá-lo dentro da cidade. A cidade sitiada baixou a guarda e deixou as tropas marcharem diretamente dentro dos muros da cidade para um suposto ritual. Quando o caixão foi colocado dentro da cidade Hadrada saiu de dentro com uma espada nas mãos, os moradores da cidade ficaram apavorados e assim os Vikings venceram a batalha. Mais na frente Harald Hadrada retorna a sua terra e retoma o seu trono em 1045.


[Na serie temos o personagem Harald que sonha em ser rei da Noruega.]


O leitor deve estar se questionando a respeito do Ragnar Lodbrok. Há duas versões para a existência de Ragnar: a lendária e a histórica. Do ponto de vista histórico, há pouquíssimas provas e nenhum consenso entre os historiadores, de modo que seu nome está vinculado a seis personagens históricos diferentes (!!!). A lenda, que alguns acreditam ser real, conta ter sido Ragnar filho do rei Sigurdo, o anel. Ele teria assumido o reinado da Suécia ou Dinamarca (as versões variam), e se casado três vezes: com Lagertha, Tora e Aslauga. Conta ainda a lenda que ele invadiu diversas regiões e deu origem a muitos filhos alguns deles lendários entre os nórdicos.



Mesmo sendo uma ficção de fundo histórico (como catalogado na nossa coleção de filmografia), a série é interessante pelo profundo mergulho cultural que ela nos induz, visitando a intimidade das casas, rituais, mentes e corações de pessoas de uma cultura que há muito tempo não mais podemos ver. Mas que, sem dúvida, ainda sobrevive no imaginário coletivo formador da cultura ocidental – sobretudo nórdica – com elementos de sua mitologia e cultura presentes até mesmo em grandes sucessos de bilheteria do século XXI, como Thor (Marvel), Aquamen (DC) e em inúmeros livros, séries, filmes e até jogos sobre as lendárias invasões vikings.


Aliás, uma dica de série que retrata esse mesmo período (com muitas semelhanças de locais e nomes de personagens) é “O último reino”, também da Netflix. Só que essa conta a história dando mais espaço para a perspectiva dos saxões que se veem cercados pelos vikings (dinamarqueses na legenda da série). Mas esse pode ser tema de outra conversa.



ATENÇÃO! Essa série contém cenas fortes (violência, sexo) e a sua classificação indicativa é de 16 anos.


Rastreabilidade:

- Peter Scott. Vinkings: a história real dos temidos marinheiros nórdicos. Editora Book Brothers.

- Wikipédia


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