Tróia: a queda de uma cidade

Atenção: contém infiltrações!




Talvez não haja história que tenha perdurado por tanto tempo quanto a da rainha Helena, raptada pelo Príncipe de Tróia, Páris, e o desdobramento desse rapto na épica guerra de Tróia. Guerra esta que foi palco de tantos heróis por nós conhecidos: Aquiles, Odisseu (Ulisses), Heitor, Menelau, Agamenon, Ájax, Enéias dentre tantos outros. E foi essa história que inspirou a série disponível na Netflix “Tróia: a queda de uma cidade”.


Mas essa história de fato aconteceu? Em verdade, não há um consenso entre os historiadores. O arqueólogo Frank Calvert encontrou em suas escavações uma cidade na região da Turquia, que considerou tratar-se da cidade de Tróia, dividindo as opiniões entre os estudiosos do assunto. A questão é que mesmo para os que acreditam que a cidade escavada é deveras Tróia, não há prova suficiente de que a famosa guerra entre Troianos e Aqueus (gregos) de fato aconteceu.


O que sabemos é que essa história vem sendo retratada na literatura por milênios, tendo atravessado as eras e navegado com admirável resistência pelos rios do tempo, nomeando crianças, inspirando tantos artistas, aguçando o interesse de amantes da literatura e estudiosos de história.


Mas chegando ao assunto da série, o que está retratado ali é um pouco da história descrita por Homero no livro “A Ilíada”. Porém, o sacrifício da filha de Menelau, Efigênia, é uma referência ao livro escrito tempos depois, em 406 a.C. pelo poeta grego Eurípedes. A cena final do cavalo de Tróia também não existe na “Ilíada”, mas sim no livro “A Odisséia”, também de autoria atribuída a Homero, que relata o retorno do herói Odisseu para casa após o final da guerra.


A série mostra o rapto de Helena como uma fuga voluntária, mas não é bem assim que Homero descreve na Ilíada. A palavra utilizada é “rapto” e o livro contém uma passagem que diz o seguinte:


Helena, filha de Zeus, recrimina Páris sem fitá-lo “Voltaste da guerra? Quem dera tivesses sucumbido à forte mão do meu primeiro esposo”.


Esse trecho dá a entender que ela não gostava de Páris, porém, isso não fica muito claro ao longo do livro. Na verdade Helena e Páris são os personagens menos mencionados por Homero – enquanto a serie os coloca como protagonistas. O livro A Ilíada começa no nono ano da guerra que durou dez anos e narra a ira de Aquiles, começando no momento em que este se revoltou contra Agamenon por ele ter pegado a sua escrava, e concluindo com o momento em que Aquiles decide voltar a lutar na guerra matando o herói Heitor. Além de Aquiles, os principais heróis da narrativa são: Agamenon, Heitor, Ájax, Odisseu, Nestor, dentre outros. Páris passa longe em termos de relevância no enredo.




Porém, há um ponto em que a série ensaia um acerto: retratando a presença dos deuses. Acontece que na Ilíada os deuses são muito mais presentes do que o que a série retrata. A guerra de Tróia é totalmente influenciada pelos deuses que se apresentam nos sonhos dos heróis, sopram soluções nas reuniões de estado e se lançam no campo de batalha protegendo seus guerreiros preferidos. Algumas cenas do livro inclusive se passam no próprio Olimpo com diálogos entre os deuses.


Há muito o que se falar em termos de comparação da série com o livro, mas, receando deixar esse texto grande demais vamos abordar só mais um tópico: Heitor, filho do rei Príamo, príncipe primogênito de Tróia. A guerra, como sabemos, teve como estopim a insensatez de Páris que ao visitar um chefe de estado sequestra sua esposa. No entanto, Heitor, mesmo discordando do irmão, assume as rédeas do conflito, haja vista a avançada idade do seu pai, o rei. Ele lidera os exércitos, inflige medo em seus adversários por sua extraordinária habilidade na guerra, e é honrado, digno, um homem de palavra e moral. Em determinado momento do livro Heitor decide pôr fim à guerra, dirige-se ao acampamento dos Aqueus (nome dado aos inimigos dos Troianos) e pede que escolham entre seus guerreiros um para duelar com ele a fim de resolver de uma vez por todas o vencedor da guerra. Eles escolhem Ájax e eles duelam por muitas horas. A noite se aproxima e Heitor, que a essa altura já havia perdido irmãos de sangue e coração, mesmo sabendo que se fosse derrotado o inimigo seria implacável com seus pais, esposa e filho, dirige-se à Ájax e diz:


“Um Deus - Ájax - te deu a magna estatura, a prudência, o vigor. És o melhor lanceiro entre os teus. Vamos pôr fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. Aos teus amigos retorna, realegra os Dânaos junto às naus. Eu, na pólis de Príamo, aos Troicos e às Troianas, de longos peplos, que por mim imploram no recinto do templo, também realegrarei. Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: ‘Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos”


Os inimigos admiravam tanto Heitor que enquanto Ájax se arrumava para a batalha seus pares oravam aos deuses o seguinte:


“Concede que Ájax triunfe e ancalce êxito esplendido. Mas se amas Héitor Priâmeo e por ele velas igualmente reparte aos dois valor e glória!”


Esses trechos mostram a personalidade desse herói, que frente a um inimigo reconhece suas qualidades “magna estatura, prudência, vigor”, deseja que ele se alegre junto aos seus e que ao final da peleia prevaleça um sentimento de amizade. Seus inimigos o respeitam tanto, que oram para que os deuses lhe concedam valor e glória de modo que Heitor não seja humilhado. Tendo em vista que a série deixou muito a desejar ao retratar Heitor, utilizo esse espaço para trazer aos leitores a grandeza desse herói.




Por fim trazemos só um pequeno esclarecimento quanto a nomenclatura para os povos que vivem na Hélade. Chamamos esse lugar de Grécia e inclusive algumas traduções da Ilíada utilizam esse termo. No entanto, o nome “gregos” foi dado pelos romanos, enquanto eles se autodenominam “helenos”, ou seja, habitantes da Elláda (ou Hélade). Aliás, o nome oficial do país que hoje chamamos Grécia é República Helênica. A guerra de Tróia foi uma guerra entre espartanos e seus aliados contra troianos e seus aliados, porém, todos eram Helenos, pertenciam a um mesmo povo, constituindo apenas cidade-estados distintas.


A verdade é que esse assunto rende muito pano para manga. Todos os épicos rendem. E você? Já leu a Ilíada? O que observou de diferença entre o livro e a série da Netflix?


Se você tem vontade de conhecer mais a respeito do livro mas não quer lê-lo, recomendamos a aula a respeito da Ilíada do Professor José Monir Nasser disponível no youtube. Na foto aparece a palavra “Odisséia” mas a aula é sobre a Ilíada. Segue o link:

José Monir Nasser - Homero - Ilíada - parte 1/2


Rastreabilidade:

- Homero, A Ilíada. Tradução Haroldo de Campos.

- Homero, A Ilíada. Tradução Trajano Vieira.

- Junito de Sousa Brandão. Mitologia Grega.

- Wikipédia. Grécia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A9cia

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