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O Rio do Tempo e o Mar da História

Atualizado: 26 de fev. de 2021



Há quem diga que a História é feita de fluxos e contrafluxos. Essa imagem ajuda a explicar os movimentos de revoluções e contra revoluções, guerra e paz, avanços e retrocessos sociais, culturais e científicos. A história com suas infindáveis idas e vindas nos remete ao Mar da História. Sua imensidão e seus mistérios nos convidam a navegar e explorá-lo. Nos lançamos rumo ao desconhecido em busca de conhecer. Suas ondas e suas correntes, que dançam com o movimento dos ventos, nos chamam a aprender pela observação, dos mais sutis detalhes até os grandes ciclos naturais.

“A história nunca se repete, mas muitas vezes ela rima.”

A frase atribuída a Mark Twain é famosa e inquietante. Se não podemos prever o futuro, será que o passado pode nos dar pistas? Da mesma forma, um surfista sabe diferenciar uma onda da outra, mas conhece bem sua anatomia geral e tipologias. Acreditamos que conhecer a história da humanidade não apenas é importante, mas também pode ser muito interessante.


Contudo, navegar pelos mares bravios da história da humanidade é empreitada que exige grande fôlego, técnica e muita habilidade, pois é grande o risco de perder a rota. Comecemos, portanto, estudando os mapas de navegação de forma mais geral para podermos, em momento certo, nos aventurarmos em viagens mais longas em cada período histórico.


Nosso fio condutor é o Rio do Tempo. Este sim, fluxo contínuo, eterno e unidirecional (pelo menos aos nossos olhos terrenos) e que nos servirá de parâmetro nesse estudo. Navegação em rio também tem seus desafios, com quedas e rupturas, afluentes e ilhas. Mas aqui olhamos principalmente para a ordem cronológica dos acontecimentos mais importantes. Quando aprendemos a navegar bem pelo Rio do Tempo, as incursões pelo Mar da História tendem a ser mais proveitosas.


Convidamos a entrar nessas águas aos poucos, preparando o corpo e a mente para mergulhos mais profundos. Mas lembramos sempre que datas do nosso fio condutor – sobretudo as mais antigas – são apenas pontos de referência, meros marcos fincados por estudiosos nos pontos onde encontraram significativos sinais, para que possamos nos situar na vastidão do tempo e do espaço.


Então vamos lá, em nossa primeira e mais panorâmica incursão!


De antemão, um alerta: existem diversas formas de organizar e mapear toda a linha do tempo, a depender do ponto de vista que se adota e do espaço geográfico que é observado. Para fins didáticos, optamos aqui por uma abordagem que nos é mais familiar: a clássica eurocêntrica, inspirada na historiografia positivista europeia. Mas, sempre que possível, buscamos também incluir nuances de outras perspectivas.


 


PRÉ-HISTÓRIA

DURAÇÃO: cerca de 200 mil anos

Da origem do homem até o aparecimento da escrita


A Pré-História compreende simplesmente tudo, desde o passado mais remoto e desconhecido da humanidade até a origem da escrita. É, portanto, entendida como anterior (pré) à história todo o período em que os historiadores não podem se valer de documentos escritos em seus estudos e se debruçam sobre outros rastros deixados pelos nossos antepassados - sobretudo com ajuda da arqueologia e da antropologia. Como a escrita chegou em momentos diferentes em cada povo e região, esse marco na linha do tempo é necessariamente impreciso. Mas, de maneira geral, considera-se que esse período histórico começou por volta de 200.000 a.C e se estendeu até meados de 3.100 a.C.


Reconstruir esse passado, encaixando cuidadosamente cada peça, criando narrativas que dão contexto e sentido aos vestígios encontrados, parece ser um ímpeto natural da humanidade. Ainda que em sua maior parte coberta de mistérios, a pré-história já rendeu à sétima arte algumas dessas narrativas. Você lembra de alguma?


IDADE ANTIGA

DURAÇÃO: cerca de 4 mil anos

Do aparecimento da escrita até a queda do Império Romano do Ocidente

3.100 a.C [1]a 476 d.C.


Na Idade Antiga, além da divisão clássica na linha do tempo temos também uma divisão geográfica. Como sabemos, as sociedades se desenvolveram em ritmos e de maneiras diferentes nos diversos lugares do globo, especialmente nos tempos em que as comunicações e os meios de transporte ampliavam as distâncias entre os povos.


Essa idade, que durou cerca de 4 milênios, nasceu com os primeiros registros escritos que a humanidade tem conhecimento, teve seu apogeu com o desenvolvimento da cultura greco-romana e se pôs com a queda do Império Romano no Ocidente, em 476[2]. É rica em vestígios históricos, mistérios e foi celeiro de muitas coisas que sobrevivem até nossos dias. Evidência disso é a profusão de obras cinematográficas que retratam personagens históricos e mitológicos desses tempos e que continuam a nutrir e habitar nosso imaginário. Quais deles você conhece ou acha mais interessante?




IDADE MÉDIA

DURAÇÃO: mil anos

Da queda do Império Romano do Ocidente (476) até a conquista de Constantinopla

Séc. V ao séc. XV


O milênio que separa o séc. V e o séc. XV é chamado Idade Média. Certamente, recebeu esse nome de historiadores que olharam para o passado e compreenderam essa época como uma entre duas outras - a do meio, medieval. Apesar de tratar mais especificamente dos eventos históricos ocorridos em território europeu, aqui buscamos alargar o conceito desse período, olhando também para o que acontecia no globo em outros continentes.


Ao avançarmos no rio do tempo, alguns marcos ficam mais claros - pela abundância de registros e documentos com nomes, datas, locais, narrativas - mas também se tornam mais agitadas e complexas as águas do mar da história. Portanto, deve ser redobrado o cuidado ao navegar daqui para frente. Exemplo disso é o fato de a Idade Média ter sido conhecida por muito tempo como Idade das Trevas. Os que assim a qualificaram estavam colocando em destaque as transformações sociais, culturais e políticas ocorridas na Europa Ocidental após o fim do domínio do Império Romano e as migrações dos chamados “povos bárbaros” para a região. Uma nova forma de exercício do poder se instaurara: o feudalismo. Mas o processo de descentralização política não se deu em toda parte. Mais ao oriente, por exemplo, o Império Romano do Oriente (também chamado Bizantino) ainda florescia e os grandes Califados Islâmicos tiveram seu apogeu. E isso sem falar nas inúmeras outras civilizações que floresceram na Ásia Oriental e nas Américas.


No imaginário cinematográfico, contudo, o que predominam são as narrativas “tradicionais” medievais: cavaleiros, reis, castelos, lutas, honra, religiosidade (e extremismo religioso), e um sem número de reinados pequenos e grandes, distantes anos-luz entre si, aproximados apenas pelas histórias dos espíritos mais aventureiros que ousavam desbravar as terras e mares selvagens. Quais filmes fazem parte do seu repertório narrativo e imagético sobre a Idade Média?




IDADE MODERNA

DURAÇÃO: cerca de 300 anos

Da conquista de Constantinopla (1453) até a Revolução Francesa (1789)

Meados do séc. XV até o final do séc. XVIII


A correnteza no Rio do Tempo parece entrar num fluxo mais acelerado deste ponto em diante. Isso porque as transformações que nos são visíveis se dão em intervalos de tempo mais curtos e, por isso mesmo, são mais nítidas.


O marco inicial da Idade Moderna também não é consenso entre os historiadores. Há quem diga que foi a chegada de Colombo na América (1492) ou ainda a Reforma Protestante (1517)[3]. Aqui vamos no mesmo barco de boa parte dos historiadores que observam, na conquista de Constantinopla pelo Império Otomano, um marco mais apropriado para sinalizar o novo período histórico que se abria. Cai o Império Bizantino, herdeiro histórico do Império Romano do Oriente, e entra em ascensão o Império Otomano, cuja longa e complexa história nos leva até o final da Primeira Guerra Mundial (1918).


Muitas coisas importantes aconteceram no intervalo de apenas 336 anos: o Renascimento cultural e científico, as grandes navegações e a colonização das Américas, a centralização do poder político em torno dos monarcas europeus até o extremo, com o Absolutismo, o renascimento comercial potencializado pelas novas rotas com o oriente e novos produtos coloniais, o mercantilismo como sistema norteador das grandes economias, o desenvolvimento da imprensa e o surgimento do Estado Moderno de Direito. É claro que nessa época também foram plantadas as sementes que provocaram transformações ainda mais aceleradas, radicais e profundas na era que se abriu com a Revolução Francesa. Mas isso é assunto para outro tópico.


Muitas são as histórias desse período recontadas em produções audiovisuais. São aventuras, guerras, histórias de amor, de dor e de fé, intrigas e lutas pelo poder, descobertas de novos mundos. Uma era onde novos horizontes de abriam e as distâncias geográficas entre os povos começaram a diminuir. Quais filmes e séries te remetem a esse período histórico?





IDADE CONTEMPORÂNEA

DURAÇÃO: cerca de 200 anos

Da Revolução Francesa (1789) à dissolução da União Soviética (1991)

Séculos XIX e XX


O próprio rio do tempo, eternamente linear e contínuo, parece entrar em uma fase de águas agitadas. São muitas e grandes as rupturas e a força transformadora das águas dos tempos parece ser bem maior. Em apenas dois séculos, tantas foram as revoluções – tecnológicas, ideológicas, econômicas, políticas, culturais – que muitos e quase incompreensíveis em sua totalidade também foram seus efeitos.


Estão neste intervalo de tempo: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa (a “dupla revolução” que colocou em movimento acelerado o mar da história); levantes liberais e nacionalistas por todo o mundo, em ondas que chegaram em diferentes momentos a cada praia, novas formas de impérios, não apenas pela dominação militar de faixas territoriais contíguas, mas também por forças econômicas e culturais em imperialismos globalizados; duas grandes guerras mundiais, uma grande guerra fria e umas tantas guerras quentes, regionais e locais.


Para o cinema, esse é sem dúvida o período mais rico e diversificado. São tantos os temas e histórias que alimentam nosso repertório imagético e narrativo, e de forma tão intensa e que quase parece real, que é difícil citar apenas alguns.




ATUALIDADE

DURAÇÃO: a partir de 1991

Desde o fim da Guerra Fria, com a dissolução da URSS

Século XXI


Depois dessa longa jornada de tantos milênios, olhamos para o mundo no século XXI e ele parece girar mais rápido do que costumava antes. Talvez esse seja o efeito resultante de nosso estilo de vida – com todas as tecnologias que encurtam distâncias – junto com o fato de estarmos aqui também girando. Estamos falando de processos históricos que ainda estão em andamento e, portanto, não podemos ter o distanciamento de um observador do passado, mas sim o olhar atento do observador participativo do presente.


O marco que escolhemos para esse recorte histórico é apenas um ponto de interrogação. Sabemos que a velha ordem mundial que prevaleceu durante os 46 anos de Guerra Fria chegou ao fim. Mas ninguém sabe ainda ao certo o que foi que começou a partir dali. Há muitas teorias, muitas opiniões, muitos estudos e muitas paixões.


Daqui para frente, navegamos nas águas rasas da Atualidade, onde estamos irremediavelmente imersos e de onde o alcance de nossa vista é limitado. Temos um excelente acompanhamento dos detalhes, mas apenas um vislumbre borrado e parcial do panorama geral.


Só a calmaria dada pelo rio do tempo poderá deixar menos turvas as águas agitadas dessas décadas que vivemos. Mas isso não torna a navegação menos interessante ou emocionante. Muito pelo contrário. Aqui temos uma infinidade de assuntos, histórias e lições a serem aprendidas. E os filmes continuam a ter o que nos ensinar – se soubermos ler o que eles têm a oferecer.


 

[1] Estima-se que em 3.100 a.C apareceu a escrita pictográfica na Suméria, de acordo com o Atlas da História do Mundo, Folha de São Paulo, 1995. Vale registrar que em 1.500 a.C marca o início da escrita ideográfica na China, da escrita “linear B” em Creta e na Grécia, e ainda da escrita cuneiforme hitita na Anatólia. [2] Último imperador Romano do Ocidente é deposto. Poucos anos depois, em 486, Clóvis funda o reinado dos Francos nessa região da Europa central e ocidental. [3] Data da publicação das 95 Teses de Martinho Lutero, embora esse seja também um marco aproximado da Reforma.

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